quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

a bela e o surfarazzo

- Então, Marilyn, que carinha é essa? Parece que acabaste de vir da Loja do Cidadão!...
- Já sabes que não gosto de ficar aqui plantada, horas a fio, à tua espera...
- ...Mas as ondinhas estavam tão boas!...
- Pois... E eu?
- ...E tu podias fazer ponto cruz enquanto esperavas por mim, amor, ou ir visitar a prisão de onde fugiu o Cunhal, que é tão histórico como tu!... Vá, dá cá um kiss e não te chateies. Temos o resto do dia por nossa conta!
- O resto do dia? É quase noite!...
- Melhor ainda! Vamos para casa e, enquanto eu tomo um banhito quente e trato da minha depilação genital, tu acendes a lareira e metes o chouriço ao lume!
- Sabes, Moura, está-me a apetecer uma cataplana, ou uns bifinhos de champinhons...
- Ah sim?! Então, ‘tá bem. Vá lá comprar os bifinhos ao Intermarché, que o menino empresta-lhe o cartão de crédito. E, se for a menina a cozinhá-los, até lhe ofereço um apartamento num arranha-céus do Dubai e o computador Magalhães, para jogar ao Solitário lá nas alturas!...



segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

vento cão

Apesar do frio que assolou o país este fim-de-semana, nem tudo foi mau.
A ausência de vento e o sol de sábado justificaram as quase três horas que passei no mar do nosso Cantinho, com uma ondulação aceitável, a funcionar, inclusivamente, à maré vazia.
Já no domingo, o filme foi outro. Despertei com a carcaça do meu valioso hotel ambulante a pelejar com o vento. As fortes rajadas, junto ao Lagide, pareciam decididas a despejar-me pela encosta abaixo e ao meu velho canídeo, que àquela hora já se mostrava bastante ansioso por devolver à natureza a última ceia.
Ter de voar na furgoneta, seria até um mal menor – antigamente, se descia de eléctrico uma rua de Lisboa, desejava mesmo que lhe faltasse o freio, só para ver como era! – desde que não se aleijasse ninguém...
O meu problema consistia primeiramente na higiene do bicho, que me inquietava com as suas bufas premonitórias...
Se o levo para o meio do vendaval, ainda fico sem ele, pensei. Se espero demais, vai acabar por se borrar todo.
Sempre detestei dilemas, porque tenho tendência para a pior saída.
Mas, ali, estava-se mesmo a ver, a única saída era a porta.
Trela enfiada e vamos nós.
Mal vê a rua, já lhe brota da tripa o mal, que trato de pisar, no meio daquela atrapalhação, querendo fazê-lo descer do estribo sem que se magoe.
Uma vez lá fora, o xixi nem sequer alcança o chão, pois o vento rasteiro projecta-o no ar como uma pistola de rega. E os dois croquetes, acabadinhos de cozinhar, abalam a correr pelo terreno arenoso, como ratos assustadiços.
No pára-brisas da Volksvagen ali ao lado, descubro um jovem casal alemão, de quem só conhecia até ao momento as sapatilhas, que tinham deixado a pernoitar cá fora.
Seguram chávenas, que adivinho com chá quente.
Riem.
Sou a sua televisão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

filomena

Mergulhou as unhas envernizadas na carteira e tirou de lá vinte euros, para dar ao filho adolescente que tinha as calças a fugirem-lhe do cu e cabelo de cão de água. O puto voltou-lhe um agradecimento esforçado e desapareceu com a prancha de surf debaixo do braço em direcção à praia.
- Está a ver, senhor António – disse ela, automática, para o empregado de balcão, enquanto vazava sobre a bica o pacote do açúcar – só dão é despesas!
Depois, fitou-me, de soslaio, a sorrir com apenas metade da boca, requerendo a minha cumplicidade.
Eu dispensei-lhe um sorriso formal e chamei o “António”, que não me conhecia de lado nenhum, para saldar a conta. Acabei por sair daquele café na Caparica a remoer na imagem familiar do rosto dela, semi travestido pelos cosméticos e algumas rugas.
Só se fez luz no dia seguinte, quando pensei na Filomena, que eu conheci por aquelas bandas em '86! A dita, vistosa, teria, então, uns 16 anos e sobressaía nuns fotográficos olhos azuis e no volume emancipado dos seios. Era do tipo extrovertido e não tardou a meter conversa com o grupo de amigos que frequentavam naquela altura as ondas da Costa e o Quica Bar, entre os quais me incluía eu.
A Mena era fixe.
Curtia com todos e consentia sem problemas uns apalpões. Mas não tardou a transferir-se para o grupo dos betos, que tinham pranchas brand new, roupinha de marca e estavam lá a semana inteira, porque não precisavam de vergar a mola para comprar peúgas e gilletes.
Em pouco tempo, foi-nos negando os apalpões e, dos lábios dela, já só tínhamos notícias quando vinham, casualmente, beijar o filtro dos cigarros que nos ia cravando.
Depois, aos poucos, evaporou-se. Durante mais de duas décadas, até à data inevitável destas linhas.
As voltas que o mundo dá!...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

dia d

- Ke bela maneirra de komeçarr o ano! Estamos sofrrendo um invasão, tenente von Lili!
- Ya, mein kapitão!... De prranchash e kanoash!
- Ainda porr cima, kanoash! Já não bastavam os prranchash!...
- "Kanoa de vela errguida..."
- Não é horra de brrinkarr, tenente von Lili! Maish uma dessash e vai surrfarr na klorroforrmio!
- Enstschuldigung, mein kapitão! É maish forrte ke eu eshta vontade de serr kantorra!...
- Kale-se! Trrate já de prreparrarr um injecção letal parra eliminarr essesh porrkosh invasorresh! Depoish, poderrá kantarr-lhes o marrcha fúnebrre!
- Ya, mein kapitão! Mash... prrimeirro, prreciso irr ao kasa-de-banho!
- Was?!
- Eshtou enerrvada! E os nerrvosh alterram-me osh inteshtinosh...
- Chaisse! Você só me dá prroblemash, tenente von Lili! Se os seush intestinosh não funkcionam, tem bom remédio: korrta o barriga àquele parrakedishta inglêsh e fika kom os inteshtinosh dele, ke devem estarr limpinhosh de tanto chá!...
- Eshtou a fikarr agoniada!
- Agoniado eshtou eu, kom tantos prranchash e kanoash!...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Faz lá destas ó Taj!


Não sei se esta fotografia é montagem ou não. Mas foi a partir deste momento que se começou a chamar "toca" aos tubos... e de uma coisa tenho a certeza: este tube rider não quer gatas à sua espera na praia...

back to the future (quem foi que se meteu na história das tatuagens?)

- É um prazer vê-lo a trabalhar, senhor Jack Carpenter! Ao vivo e a preto e branco!
- Não há tatuadores, lá no futuro?
- Há, sim. Mas, antes de sacrificar o meu pé delicado, decidi regressar aos anos cinquenta, para ver como tudo começou.
- ...Muito bem! Mas olhe, Miss Martel, não há nada de especial nisto. Começou tudo com meia dúzia de malucos, como sempre!...
- Soube que o senhor Carpenter foi o primeiro a tatuar uma mulher!...
- Fui, não: sou! Precisamente esta mulher que aqui está! Agora! Neste momento!
- Uau! Lá, em Portugal, nessa altura, uma mulher tatuada seria um escândalo!
- Onde é Portugal?
- Deixe, senhor Carpenter. Talvez um dia fique a saber, se ainda estiver vivo em '74, ou se, por acaso, tiver de tatuar um mapa no trícipe dum emigrante saudoso...
- É lá para as Espanhas, não é?
- Meu Deus...
- Olhe, Miss Martel, eu é mais geografia anatómica! Se quiser, posso transformar-lhe o umbigo num belo cu de macaco! Sempre fica com um cheirinho a África!...
- Que disparate!!!
- Olhe que os anos cinquenta são muito à frente!
- ‘Tou a ver!... Até as senhoras com blusinhas do género “Uma Casa na Pradaria” vêem sacrificar os seus níveos braços com desenhos que parecem o símbolo do Sport Lisboa e Benfica!
- What?
- Forget it, mister Carpenter. Obrigada pelo macaco, mas vou regressar a 2009, onde a história felizmente é outra.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

feliz natal!

Aqui deixo os desejos de um Feliz Natal a todos os amigos e leitores do nosso Blog.
1 abraço e tudo do melhor.

domingo, 13 de dezembro de 2009

winter time

O Inverno está a chegar mas lembrem-se há sempre sitios mais frios...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Esqueçam....


... o DarkSurfer! Se este aqui descobre o cantinho é que estamos lixados...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

agora de ondas :)











apêndice

Só para relembrar que as fotos subaquáticas não foram tiradas no aquário Vasco da Gama mas sim em pleno mar das Maldivas. Isto é a resposta para aqueles que depois vêm atirar bocas e dizer que é no aquário e o surf é em Vila Real de Santo António... Hehehehehehe!

só para meter inveja :)











Maldivas até que enfim
















Pois é demorou mas foi, as fotos essas só agora é que apareceram pois estive de luto após a viagem pois o choque da chegada é grande, este é o unico defeito que encontrei nesta viagem pois tudo o resto sem palavras...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

happy birthday!

Faz hoje um ano que tudo começou, e eu, confesso, estou satisfeito pelo divertimento que me tem proporcionado este Cantinho, sobretudo pela possibilidade de aqui ter encontrado uma espécie de onda virtual, sempre à minha inteira disposição, quando e como eu quiser, que é uma coisa que eu gostava que me acontecesse com as ondas reais.
Estou certo que me entendem.
E para exprimir a razão de ser do Cantinho da Onda resolvi compor a imagem ao lado, que presta homenagem a todas as pessoas que, duma forma ou doutra, por aqui têem passado e sem as quais este espaço não faria sentido. Mas, para que ele continue a fazer sentido, é preciso que não lhe faltem as pessoas...
Vale a pena pensar nisso!
A todos vós, aquele abraço!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

walking

Onde vão eles?
O que há à frente?
Que procuram eles?
O que vão a conversar?
Um momento no tempo...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sacanas sem lei

Na dispensa e no frigorífico, já só havia ar. Haviam de parar, ao correr da estrada, para roubarem marmelos (daqueles biológicos, onde moram as moscas e as lagartas). Não é que fossem uns unhas-de-fome e não pudessem matar o bicho num restaurante qualquer. Mas o atum, o feijão branco e outras delícias enlatadas assaltavam-lhes teimosamente os pratos de plástico, que lavavam com pão até que neles se conseguisse reflectir a lua.
Só variaram no último dia, depois da derradeira batalha no meio das ondas lhes ter levado o que lhes restava de energia e tê-los feito sentirem-se aptos a devorarem uma centena de javalis, como o Obelix. Mas contentaram-se com um parente do Bugs Bunny, assassinado a sangue frio num amigável tasco alemão à beira da estrada. Enquanto posavam para o passarinho e iam soltando umas graçolas e umas bombinhas de mau cheiro, já o desgraçado do animal esticava o pernil, para os esperar numa improvável travessa de loiça de Sacavém, cortado aos bocados. À Tarantino.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

a alforreca badameca

Era uma vez uma alforreca que se chamava Badameca. Antes de se chamar Badameca, a alforreca Badameca não tinha nome. Era uma simples alforreca entre a colónia de alforrecas onde todas as alforrecas eram iguais.
Durante o dia, a alforreca Badameca passava o tempo a comer camarões. Como isso lhe parecia muito monótono, perguntou às outras:
- Porque é que passamos o dia inteiro a comer camarões?
Nenhuma alforreca quis responder à Badameca.
- PORQUE É QUE PASSAMOS O DIA INTEIRO A COMER CAMARÕÕÕÕÕES? – insistiu.
A rainha das cubomedusas estendeu os tentáculos, que eram grandes como pernas de girafa e dirigiu-se com a sua enorme cabeça de sino em direcção à Badameca:
- Qual é o problema com os camarões?!...
A alforreca Badameca não se deixou intimidar:
- Podíamos variar – disse ela, intrépida, enquanto arrotava repetidamente aos camarões. – É cá uma falta de criatividade!
- És a primeira a queixar-se! Uma alforreca não foi feita para se queixar, mas sim para os outros se queixarem dela, como os banhistas do domingo passado! Aqui, é assim: ou comes camarão, ou comes camarão! Se não comeres camarão, enfraquecerás por não comeres camarão; perderão forças as tuas células urticantes e serás a primeira a cair nos dentes das tartarugas ou a ser regada com vinagre por um ser humano! Portanto: ou comes camarão, ou comes camarão!
- Fascista! Não comerei camarão!
- Comunista! Já não és uma das nossas! Podes fazer as malas e põe-te a andar! Sua badameca!
- BADAMEEEEEEECA!!! – repetiu, em coro, toda a colónia.
Foi nesse dia que a alforreca Badameca, por querer ser diferente das outras, passou a chamar-se Badameca.
Com muito orgulho.

Para o meu filho João